O limite entre a loucura e a genialidade - Blog da Fórmula-1 de Daniel Dias - Dias ao Volante

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O limite entre a loucura e a genialidade

Dias ao Volante
Publicado por em F-1 ·

Max Verstappen, 18 anos, é o maior expoente surgido na Fórmula-1 na segunda década deste século. Dono de um estilo arrojado e técnico, o cidadão holandês nascido em um pequeno vilarejo da Bélgica atraiu uma multidão de fãs ao principal circuito do planeta, Spa-Francorchamps, há duas semanas. Todos vestidos de laranja, a cor no esporte da Holanda, viram o garoto brilhar mais uma vez nos treinos, assumindo o segundo posto na classificação do grid, atrás somente de uma poderosa Mercedes.
Tudo foi por terra depois de poucos metros na largada, com Verstappen tracionando mal sua Red Bull e tentando se recuperar em seguida. Os momentos posteriores, no entanto, foram desastrosos. Max foi autor de uma curva desastrada no "grampo" inicial de Spa, provocando uma confusão para quem vinha em perseguição ao líder, e vencedor, da etapa, o alemão Nico Rosberg.
Caindo para as últimas posições e arrastando também as Ferrari do alemão Sebastian Vettel e do finlandês Kimi Raikkonen, Verstappen foi autor de outras manobras perigosas na décima terceira corrida do campeonato. A mais negativa ao forçar uma freada de Raikkonen, que vinha atrás dele e bem mais veloz, em pleno retão Kemmel de Spa.
Se fosse um retardatário, a ação seria qualificada de criminosa. Sendo com Max Verstappen, nem entrou sob as rigorosas investigações dos comissários. Essas atitudes de extremo risco vem ocorrendo com o holandês desde o GP da Inglaterra deste ano. Nunca foram a julgamento. Perguntado após a prova sobre as constantes reclamações de seus colegas de pista, o Max deu de ombros e disse: "os outros que se virem! Não fui punido".
Aí ficou comprovada toda a polêmica envolvendo atualmente o "menino de ouro" da F-1: é louco, genial ou é protegido?
O mais notável piloto marcado com esse carimbo foi o canadense Gilles Villeneuve, morto nos treinos oficiais do GP da Bélgica (vejam só) de 1982, no circuito de Zolder, no qual fez uma tentativa desnecessária de ultrapassagem, bateu a Ferrari na traseira da March do alemão Jochen Mass, decolou e o cinto de segurança se soltou. Gilles seria o campeão naquele ano, mas morreu com a coluna cervical rompida ao se chocar contra o guard-rail. Tinha apenas 32 anos de idade.
Villeneuve até hoje é reverenciado pelos italianos, pois tinha o "espírito da Ferrari". A habilidade do canadense ao volante era inegável. Entretanto, era um insano, um irresponsável. Com as regras atuais da F-1, Gilles, se não mudasse, seria banido do circo. Na sua segunda prova na principal categoria do automobilismo, em 1977, se envolveu em um acidente estúpido com o sueco Ronnie Peterson em Fuji, no Japão. A Ferrari foi parar fora da pista, matando um torcedor e um fiscal.
Enzo Ferrari amava Villeneuve como a um filho, mas não cansava de pedir ao protegido: "pare de estragar meus carros!". Para quem conhecia o Comendador de perto, a morte do canadense foi o último suspiro de vivacidade do velho italiano fundador da lendária escuderia do cavalinho empinado.
Muito tempo atrás, ainda antes de Enzo abrir sua equipe e existir o Mundial de F-1, a literatura da pistas registra a presença de outro mitológico ser delirante ao volante de um bólido de corrida: Tazio Nuvolari. Como Gilles, o italiano competia como cada prova fosse a última de sua vida. Desdenhava o perigo. É igualmente de Enzo Ferrari, ainda piloto e rival de Nuvolari nas pistas, uma das mais célebres frases para definir o estilo do oponente:
– Para mim, correr além do limite é a exceção. Para ele, é a regra!
A F-1 terá de mudar para abrigar Max Verstappen ou o menino holandês terá de se adaptar? A primeira parte da questão está fora de cogitação. Verstappen, sim, terá de encontrar o limite entre a loucura e a genialidade. Terá de respeitar seus colegas. Terá de ver que não corre sozinho.
Na semana passada, o canadense Jacques Villeneuve, campeão em 1997 pela Williams, afirmou que se Verstappen não mudar seu jeito, ainda matará alguém na pista. O piá holandês, em resposta, deu mais uma mostra de sua arrogância e invejável capacidade de colecionar inimigos:
- Ele já matou alguém – falou Max, lembrando de um acidente na Austrália, no qual um pneu solto da BAR de Villeneuve matou um fiscal.
Voltando: Max Verstappen tem de ver, além das coisas que lembrei aí em cima, que ele quer ser apenas um babaca veloz ou um piloto de verdade.



2 comentários
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Daniel Dias
2016-09-09 19:59:04
Valeu, querido!
Matteus Saldanha
2016-09-08 11:01:16
"Max Verstappen tem de ver, além das coisas que lembrei aí em cima, que ele quer ser apenas um babaca veloz ou um piloto de verdade."

Frase soberba

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